Top 10 músicas inspiradas em obras literárias

(Este texto foi publicado originalmente no número de 8 setembro de 2022 da revista Voyager, editada por Cláudia Lemes. Infelizmente, a revista não existe mais.)

Grandes artistas sempre se inspiram em outros tipos de obras artísticas para desenvolver suas criações. Isso porque, geralmente (vocês se surpreenderiam com o contrário?), todo artista é um fã, um admirador de arte, e as inspirações não precisam vir necessariamente da área em que criam.

Na música, isso é fato há muito tempo. Desde as óperas inspiradas em clássicos da literatura, como Don Giovanni, de Mozart, baseada no personagem-arquétipo Dom Juan, ou La Traviata, de Verdi, inspirada em A Dama Das Camélias, de Alexandre Dumas Filho, até os grandes discos conceituais de rock como Animals, do Pink Floyd (baseado em A Revolução Dos Bichos, de George Orwell), a música se alimenta dos livros de uma forma original e única.

Nesta lista, quero apresentar para você 10 canções que foram criadas graças a obras literárias. São as minhas favoritas, e a ordem acaba variando de tempos em tempos. Algumas são mais famosas, outras nem tanto, mas todas são ótimos exemplos de como livros podem render canções sensacionais.

10 – Killing An Arab, do The Cure

Primeiro single da carreira do The Cure, lançado em 1979, Killing An Arab foi inspirada em O Estrangeiro, livro do ganhador do Nobel de Literatura de 1957, Albert Camus. Na obra, o protagonista mata um homem árabe na Argélia francesa, sendo preso e levado a julgamento. Tendo como temas o existencialismo e a indiferença, em uma trama aparentemente banal, O Estrangeiro foi um grande sucesso e gerou polêmica, coisa que também aconteceu com a canção do The Cure. Isso porque, assim que foi lançada, Killing An Arab foi acusada de incentivar a violência contra estrangeiros, sendo apropriada por grupos neonazistas ingleses, que se identificaram com o suposto teor da letra. O fato é que a própria banda chegou a remover a música das rádios na época e colocou um disclaimer na capa do single, para evitar a fadiga. A partir de 2005, eles tocaram a canção nas turnês alterando a letra para Kissing An ArabKilling Another e mesmo Killing An Ahab, em outra referência literária.

9 – Dream No More, do Metallica

O Metallica adora colocar referências às obras de H.P. Lovecraft em suas músicas. Poderíamos falar de The Call Of Ktulu, do disco Ride the Lightning, ou The Thing That Should Not Be, do Master Of Puppets, mas quero falar de uma mais recente, Dream No More, do disco Hardwired… To Self-Destruct, de 2016. Na letra, um feroz James Hetfield nos fala sobre a grandiosidade e o poder da criatura mais famosa do panteão lovecraftiano, Cthulhu. Apresentado pela primeira vez no conto de 1928 “O Chamado De Cthulhu”, a criatura gigantesca tem um corpo reptiliano, asas enormes e um rosto grotesco, preenchido por tentáculos que saltam de seus lábios. A trama fala como o culto milenar a Cthulhu e a outros deuses antigos serve para preparar o despertar desse ser, cuja intenção é retomar a Terra e submeter os humanos a um reino de horror. Na letra de Dream No More, a banda nos conta que o ser vive nas profundezas dos oceanos, dormindo e sonhando seus sonhos de morte, ao mesmo tempo em que, com sua influência, aterroriza a mente e o espírito de nós, meros mortais.

8 – The Great God Pan, do Blood Ceremony

Essa banda é maravilhosa e sua discografia é cheia de referências a livros de horror. The Great God Pan, obviamente, se refere a O Grande Deus Pã, texto mais famoso do galês Arthur Machen. Elogiada por Stephen King como uma das obras mais assustadoras que ele já leu, a novela de 1894 conta a bizarra história de um cientista que faz um experimento com uma mulher, operando seu cérebro para que ela entre em contato com forças ocultas. O experimento dá errado (ou será que não?) e desencadeia uma série de acontecimentos macabros. Influente por seu caráter obscuro e sexual, o texto ficou alguns anos caído no esquecimento, mas nos últimos anos tem reconquistado o merecido valor. A canção do Blood Ceremony retrata um ritual de magia das trevas para invocar a força anciã do deus Pã. A sonoridade da banda é uma mistura de Black Sabbath com Jethro Tull, com direito a flauta, órgão e harmonias que grudam na cabeça. E ainda por cima com o vocal maravilhoso de Alia O’brien. Sério, conheça essa banda!

7 – Cloudbusting, de Kate Bush

Depois de viralizar em Stranger Things, uma nova geração conheceu Kate Bush, e isso é ótimo! A cantora, compositora, multi-instrumentista, dançarina, performer e produtora musical inglesa estreou com a música Wuthering Heights, inspirada no clássico O Morro Dos Ventos Uivantes. Mas a canção de que quero falar é Cloudbusting, do disco Hounds Of Love, de 1985. Cloudbusting foi criada após Bush ler A Book Of Dreams, de Peter Reich. Nesse livro de memórias, Reich relembra a infância com o pai, o psicanalista judeu Wilhelm Reich, que andava na linha entre a ciência e a pseudociência: Reich acreditava que o ar era preenchido por partículas chamadas orgonons, e construía máquinas enormes com antenas que, segundo ele, seriam capazes de atrair essas partículas e causar chuvas. Perseguido pelo governo, ele teve suas pesquisas proibidas e ficou dois anos preso, morrendo de um ataque cardíaco ainda na prisão. No livro, Peter narra sua infância como uma estranha aventura lúdica, na qual a vivência com Wilhelm construiu sua forma de ver o mundo. Na canção, Bush fala sobre inocência, amor fraternal e esperança, com melodias encantadoras. O videoclipe é um show à parte, com Bush e o saudoso Donald Sutherland interpretando pai e filho, encenando as experiências com as máquinas caça-chuva de Reich.

6 – The Battle Of Evermore, Led Zeppelin

Terceira faixa do consagrado Vol. IV do Led Zeppelin, The Battle Of Evermore faz referência à mais famosa saga de fantasia da literatura: O Senhor Dos Anéis. O Led Zeppelin levou para várias de suas canções as histórias épicas de Tolkien, que também aparecem em Ramble On e Misty Mountain Hop. A canção escolhida aqui tem todo um clima de Terra-Média, com violões e bandolins embalando uma voz que varia do grave melodioso ao agudo gritado. A letra fala sobre uma “Queen of Light”, que provavelmente é Galadriel, sobre um “Dark Lord”, que é Sauron, e faz referência aos Nazgûl, personagens conectados ao poder do Um Anel, na linha “The ringwraiths ride in black”. A influência de Tolkien na música, especialmente no rock, não se limita ao Led Zeppelin: bandas como Blind Guardian, Megadeth, Nightwish, Summoning e Sabaton já utilizaram os temas e personagens da Terra-Média em suas canções, demonstrando como a obra de Tolkien ultrapassou não só as barreiras da literatura e do cinema, mas também da música.

5 – Ave, Lúcifer, Os Mutantes

Uma das melhores canções do disco A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado, dos Mutantes, a canção Ave, Lúcifer não deixa dúvidas de onde tirou sua inspiração. Em A Divina Comédia, mais especificamente no primeiro livro, “Inferno”, Dante Alighieri conta como, guiado pelo poeta Virgílio, se dá sua descida aos campos malditos do Tártaro, local onde os pecadores pagam por seus pecados e nenhuma esperança pode entrar. O poema é inteiro escrito em tercetos de decassílabos, ou seja, com estrofes de três versos de rimas marcadas na décima sílaba poética, no esquema ABA BCB CDC DED, que resulta no interessante efeito de o primeiro verso rimar com o terceiro, o segundo rimar com o quarto e o sexto, o quinto rimar com o sétimo e o oitavo e assim sucessivamente. Tal estrutura métrica foi criada pelo próprio Dante, tendo sido batizada, posteriormente, de “terzina dantesca”. Já em Ave, Lúcifer, Rita Lee, Arnaldo Baptista e Sérgio Dias cantam sobre um passeio no inferno, com referências a anjos, serpentes e maçãs, em uma atmosfera experimental que carrega até o osso a vibe sessentista do psicodelismo.

4 – Sympathy For The Devil, Rolling Stones

Uma das melhores e mais diferentes músicas dos Rolling Stones foi inspirada por dois escritores. Tanto o russo Mikhail Bulgákov quanto o poeta francês Charles Baudelaire serviram de inspiração para Sympathy For The Devil, música do disco Beggars Banquet, lançado em 1968. De Bulgakov, a inspiração é O Mestre E Margarida, publicado no ano anterior, 1967. O livro conta a história da visita do Diabo a Moscou e sua incursão na elite literária russa. Acompanhado de personagens bizarros, como o gato preto Behemot e a bruxa Hella, o Diabo comanda a primeira metade do livro, até cruzar o caminho dos amantes Mestre e Margarida. Publicado apenas após a morte do autor (já que fazia menções e críticas ao regime stalinista), o livro se tornou uma obra cultuada e gerou diversas adaptações no teatro, no cinema e na TV. Mais sutil na canção é a influência de Baudelaire, autor de As Flores Do Mal, livro no qual consta o poema Les Litanies De Satan. Nele, o autor defende a renúncia à religião católica e simpatiza com a figura do demônio, que teria sido vítima de uma injustiça. Esse foi um dos textos que motivou o processo e as multas por “insulto à decência pública” que tanto Baudelaire quanto seus editores sofreram após a publicação de As Flores Do Mal. Na música dos Stones, uma letra insidiosa narra o encontro de um homem com uma figura misteriosa, que se gaba de seus feitos e o incentiva a adivinhar seu nome. O arranjo, com tambores e gritos selvagens, é espetacular.

3 – Scentless Apprentice, Nirvana

Uma das músicas mais barulhentas do disco In Utero, do Nirvana, tem inspiração literária, acredita? Scentless Apprentice foi baseada no romance O Perfume: História De Um Assassino, do alemão Patrick Süskind. Publicado em 1985, o best-seller conta a história de Jean-Baptiste Grenouille, um homem com um poderoso olfato, que lhe dá a habilidade de se orientar por meio dos cheiros. Por outro lado, Grenouille não possui um cheiro corporal próprio. Para compensar isso, ele passa a desenvolver perfumes diferenciados, que ele usa para chamar a atenção. Os aromas e as pessoas que conhece vão levar o protagonista a um caminho de obsessão e crime pelas ruas da cidade de Paris no século XVIII. A canção do Nirvana concentra-se na infância de Grenouille, na qual passou por maus bocados, perdendo a mãe e sofrendo com doenças. Scentless Apprentice, isto é, “aprendiz sem cheiro”, faz menção direta à condição do jovem Grenouille de não ter um odor em seu corpo. Quem diria que entre tantos gritos e microfonias, essa música falasse sobre um livro, não?

2 – Monte Castelo, Legião Urbana

Monte Castelo, da Legião Urbana, não é apenas inspirada em obras literárias: ela é uma colagem de trechos de um soneto de Camões e de alguns versículos do capítulo 13 da “Primeira Epístola de Paulo aos Coríntios”, da Bíblia. Considerada pelos membros da banda uma das melhores canções do grupo, ela também foi uma das mais difíceis de se produzir. Seu arranjo repleto de violões e órgãos ficava caótico na mixagem e deu muito trabalho ao produtor Mayrton Bahia transformá-la na música que conhecemos. Renato Russo era um aficionado por literatura, e essa canção não é a única do grupo com referências literárias. O soneto de Camões utilizado na letra é o que contém o famoso verso “Amor é um fogo que arde sem se ver”. Repleto de construções paradoxais, que falam sobre a complexidade daquele sentimento, o soneto indica a manifestação do espírito maneirista buscado por Camões, ou seja, de se opor à elegância do classicismo e construir vivências a partir de conceitos abstratos. Já o capítulo 13 de “Coríntios”, atribuído a Paulo de Tarso, é uma carta escrita aos membros da Igreja de Corinto, na Grécia. Nela, o apóstolo lida com questões acerca do espírito de Deus e de seu amor. Uma curiosidade é que essa carta teria sido na verdade a segunda de quatro cartas que Paulo escrevera dedicada a essa comunidade. No entanto, apenas duas foram encontradas e inseridas no Novo Testamento. O fato é que a canção mistura com harmonia trechos de textos muito distintos, que mesmo abordando o mesmo tema do amor, o fazem de maneiras diferentes: o primeiro, contraditoriamente, e o segundo, espiritualmente. O resultado, para mim, é uma canção emocionante e poderosa.

1 – Moloko Mesto, Sepultura

O Sepultura já gravou álbuns inteiros inspirados em livros. O primeiro foi Dante XXI, baseado também n’A Divina Comédia. Mas é do disco A-Lex, de 2009, inspirado em Laranja Mecânica, do inglês Anthony Burgess, a música que trago para vocês. Moloko Mesto faz referência à bebida que o delinquente Alex e seus companheiros bebem todas as noites, antes de saírem por uma distópica Londres cometendo os crimes mais cruéis. Após ser pego pela polícia, no entanto, Alex vai ser submetido a um tratamento experimental contra a delinquência juvenil, revelando o lado autoritário e desumano do próprio Estado. A letra da canção usa palavras retiradas diretamente das gírias Nadsat, uma espécie de vocabulário criado por Burgess misturando palavras do russo e do inglês, e que está presente em todo o livro, já que ele é narrado do ponto de vista do protagonista. Assim como Laranja Mecânica é um livro potente e violento, todo o disco A-Lex é uma paulada sonora, fazendo também referências ao filme de Kubrick e incluindo no set list a 5ª Sinfonia de Beethoven, arranjada junto com guitarras e baterias na faixa Ludwig Van. O resultado é grandioso e brutal!

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