Livros que te deixam sem respostas

Para montar essa lista, selecionei leituras que fiz há pouco tempo, por serem livros ainda frescos na minha memória — com exceção de um ou outro que me marcaram justamente pela ausência de explicações, fazendo o livro permanecer por muito tempo na minha cabeça. Evitarei spoilers, ainda que a simples menção ao fato de que seus desfechos não nos entregam nada para explicar o que aconteceu pode estragar a leitura para alguns. Garanto que, no fim das contas, essas leituras compensam justamente pelo mistério que sustentam.

Piquenique na estrada, de Arkady & Boris Strugatsky

Neste maravilhoso romance de ficção científica soviético publicado em 1971, acompanhamos Redrick Schuhart, um stalker — nome da “profissão” de certos aventureiros malucos que se arriscam a penetrar as “Zonas”, os locais onde ficaram os restos da primeira e única visita alienígena ao planeta Terra, anos antes. Acontece que entrar nesses lugares é um risco absurdo, já que a visita dos extraterrestres deixou tudo, digamos, bagunçado: substâncias mortais deslizam pelo solo, alterações gravitacionais podem esmagar uma pessoa em segundos, e certos artefatos aparentemente inofensivos podem causar mutações. No entanto, esses objetos valem muito no mercado clandestino, o que torna a profissão de stalker atraente e lucrativa.

O livro se sustenta sobre um questionamento muito simples: por que os extraterrestres apenas passaram pela Terra e logo se foram, sem qualquer contato e sem voltar tantos anos depois? Essa questão está sutilmente diluída nos capítulos do livro, que acompanha certa rotina mundana de homens fascinados pelo dinheiro que a Zona pode dar, e pelo mistério sedutor daqueles ambientes fatais. E se a Terra fosse tão insignificante que os alienígenas só considerassem nosso planeta como um ponto de parada para passar a noite e deixar o lixo? Isso significaria que nós somos insignificantes também? E por que aqui, na Terra? Por que nós? Todas essas perguntas permanecem sem respostas, ainda que a sugestão da nossa pequenez diante da grandiosidade do Universo seja a incômoda e mais provável possibilidade.

As mulheres de Tijucopapo, de Marilene Felinto

Rísia está voltando para Tijucopapo, cidade onde sua mãe nasceu e onde vive um grupo de mulheres guerreiras. O retorno de Rísia à cidade parece motivado por inúmeras questões: a desilusão com a cidade grande, os traumas do abuso sexual, o fracasso diante da carreira acadêmica. Ao mesmo tempo, parece ser um retorno mítico, uma volta para um lugar de pertencimento, uma recomposição da estrutura mental de alguém destruído pelos relacionamentos, mas também intensamente responsável pelo próprio destino.

Nada disso, no entanto, é respondido por Marilene Felinto neste livro originalmente publicado em 1982, quando a escritora tinha só 22 anos e, aparentemente, uma angústia tão forte que, ao sairmos da leitura de As mulheres de Tijucopapo, temos a sensação de que lemos algo produzido para nos atacar diretamente. O fluxo de consciência e a repetição de trechos, como leitmotifs musicais, dão à obra uma abrangência épica, ao mesmo tempo em que a intimidade de suas reflexões transforma a mente em campo de batalha. Ao final, não entendemos se o retorno de Rísia à cidade de sua mãe é algo de fato positivo — provavelmente, não é. Seu ódio parece ser a única coisa que persiste, um ódio que, do ponto de vista da opressão que encarou, soa totalmente justificado. O hermetismo do texto, como um enigma poético, convida às releituras, mas retornar ao livro é uma tarefa tão difícil quanto retornar à cidade de nascença que parece não nos querer.

O golem, de Gustav Meyrink

O romance alemão de Gustav Meyrink narra a história de Athanasius Pernath, um mestre joalheiro de passado obscuro que passa a presenciar diversos acontecimentos estranhos no bairro judeu de Praga. A vizinhança decadente, o clima opressor e as distorções da realidade, aliadas ao mistério de crimes violentos, fazem o personagem duvidar da própria existência. Ao mesmo tempo, relatos de avistamentos de uma criatura mítica do folclore judaico, o golem, levam Pernath a se envolver em tramas que misturam o real e o onírico, perdendo-se no labirinto de um mundo em plena fragmentação.

Lançado em 1915, o livro de Meyrink é um grande representante da literatura expressionista, movimento que tinha como projeto estético expressar, de forma intensa, as emoções de personagens fortemente impactados por uma realidade opressora, ao mesmo tempo em que essa expressão afeta a própria realidade, distorcendo-a. A trama misteriosa e labiríntica do livro remete, muitas vezes, ao conceito de kafkiano — Meyrink e Kafka eram contemporâneos —, mas a obra abraça os encantos e desencantos do fantástico com menos timidez. A questão do duplo marca toda a história, mas a resolução nos deixa com mais perguntas do que respostas e expressa toda a angústia das primeiras décadas do século XX.

O processo, de Franz Kafka

O processo é presença obrigatória em uma lista de obras que não respondem nossas perguntas. A dúvida é a base da história de Joseph K., homem que, certo dia, descobre estar sendo processado por um crime que ninguém sabe explicar qual é. Investigado, perseguido e oprimido por um tribunal de contornos indiscerníveis, ele precisa construir sua própria defesa, ainda que não saiba, exatamente, do que precisa se defender. A estrutura enigmática do romance amplia a sensação de confusão e estranhamento, com capítulos que não parecem se conectar aos outros e tramas que não se resolvem, até um final cujo simbolismo trágico não ilumina de maneira alguma todas as perguntas cuidadosamente construídas durante o livro.

Esse efeito é o resultado de uma mistura de coincidências providenciais, como o fato de que Kafka morreu sem terminar o livro e até mesmo sem terminar alguns capítulos, que são interrompidos durante cenas que não têm conclusão. Do mesmo modo, os manuscritos de O processo não estavam organizados quando o autor morreu: as pastas traziam os capítulos soltos e sem uma numeração que os ordenasse — o que lemos, afinal, é o resultado da edição feita por Max Brod, seu amigo e testamenteiro, que organizou o livro de acordo com certa lógica pessoal de leitura. Essa inconclusão, no entanto, dialoga com o projeto literário do autor, com as obras que publicou quando estava vivo, e configura aquilo que conhecemos, hoje, como “kafkiano”, termo que expressa certa sensação de irrealidade, desordem e pesadelo, e cujo resultado é uma frustração diante de um mundo que não faz mais sentido. Não espere respostas nas últimas páginas deste livro — nem em qualquer pessoa que ouse explicá-lo.

Fluxo-floema, de Hilda Hilst

Primeiro livro de prosa de Hilda Hilst, lançado em 1970, Fluxo-floema é uma viagem experimental única. Composto por cinco “contos”, intitulados “Fluxo”, “Osmo”, “Lázaro”, “O Unicórnio” e “Floema”, o livro nos apresenta personagens em diálogos construídos como longos fluxos de consciência, repletos de uma poesia irônica e quase pornográfica, nos quais Hilst constrói personagens obsessivos, perturbados e marcados por um profundo questionamento de seus desejos, sonhos e taras. Os temas da obscenidade, da sacralidade e do desejo são marcados por uma constante indefinição de quem fala, de quem pensa e de quem age. Não há narração plenamente estabelecida, não há trama clara, não há muitas pistas. Tudo o que existe é uma linguagem que flui de maneira insana, marcada pela experimentação e pela ousadia.

As histórias de Fluxo-floema são difíceis de resumir, por isso, o livro é uma experiência de leitura ímpar: a graça está em embarcar na doideira dessa escritora que, como poucas no país, ousou romper com os padrões de uma linguagem ordenada. O livro nos seduz pela complexidade, mas nos conquista de fato pela cadência, pela ironia e pelo desafio de atravessar uma correnteza de palavras que parecem — mas só parecem — desconexas.

Almoço nu, de William S. Burroughs

A experiência de ler este livro é similar à da leitura da obra anterior. A diferença é que Almoço nu, de 1959, parece querer simular as viagens de droga que William Lee, seu narrador, experimenta ao longo de toda a narrativa, enquanto transita por uma cidade decadente repleta de viciados. Os devaneios do personagem e as descrições de um mundo distorcido pelos efeitos dos narcóticos são gerados por uma linguagem igualmente experimental e uma composição que mistura o alucinatório ao político.

É possível vislumbrar uma trama em Almoço nu, com William Lee trabalhando para uma organização chamada “Islam Inc.” enquanto se aventura pelo submundo de Interzone, um lugar repleto de viciados e mutantes, seres que se relacionam sexualmente enquanto experimentam os efeitos de inúmeras drogas. No entanto, o caráter satírico, as características de ficção científica e body horror, a marca pornográfica e a estrutura pós-moderna transformam o livro em um quebra-cabeças que desafia a interpretação e não dá qualquer resposta simples ao leitor. As críticas controversas, o processo de censura e o julgamento do autor e dos editores em Boston por obscenidade só aumentam a aura ameaçadora de Almoço nu, ainda que não sejam capazes de resumir o impacto de sua leitura.

Nada me faltará, de Lourenço Mutarelli

Lançado em 2010, Nada me faltará conta a história de Paulo, um homem que desaparece junto com a esposa e a filha mas, um ano depois, reaparece sozinho, sem lembranças dos acontecimentos. Seu retorno causa um misto de alegria e desconfiança, seja por parte dos amigos, seja por parte da polícia, que quer entender o paradeiro da mulher e da filha ainda sumidas. Paulo, sem memórias e relutando em acreditar no que as pessoas dizem, se torna arredio, o que aumenta ainda mais a desconfiança em torno dele. O que teria acontecido naquele último ano? Por que só ele reapareceu? O que de fato aconteceu?

Essas perguntas ficam sem respostas. Tudo isso porque a estrutura narrativa e o estilo de Mutarelli nesse livro são aplicados para afastar ainda mais o leitor delas: todo o livro é composto apenas pelos diálogos dos personagens, sem a intervenção de um narrador, sem descrições de ambientação e cenário, sem qualquer suporte de sugestão visual ou imaginativa. Ler o livro é como ouvir conversas de desconhecidos no metrô, em um restaurante ou em uma fila: não sabemos o que pensam por trás do que falam. O fim aberto da narrativa nos deixa questionando tudo o que lemos até ali, como um trunfo narrativo de puro mistério

Dom Casmurro, de Machado de Assis

Considerado por muitos — eu incluso — o melhor romance de Machado de Assis, Dom Casmurro é a narrativa autobiográfica de Bentinho, desde sua infância com a mãe superprotetora, a juventude no seminário, até a vida de casado com Capitu, a mulher de “olhos de ressaca” que ele passou anos tentando entender. Crente de que foi traído pela esposa — e que o filho, Ezequiel, é na verdade fruto de um caso de Capitu com o amigo de juventude do protagonista, Escobar —, Bentinho busca convencer também a nós, leitores, a verossimilhança dessa constatação, ainda que não tenha qualquer prova da traição além de uma suposta semelhança do filho com o amigo e o choro de Capitu no velório de Escobar, tudo reforçado pelo intenso ciúme do narrador e seu olhar distorcido da realidade.

Produtor de uma das perguntas mais irrespondíveis da literatura mundial — “Capitu traiu ou não traiu?” — Dom Casmurro vai além da simples tentativa de formular uma resposta, entregando nas mãos do leitor a difícil missão de julgar aquela narrativa, contada por um dos narradores menos confiáveis das nossas letras. A prosa elegante e cínica de Machado, entregue pelo narrar neurótico de Bento Santiago, é uma das coisas mais maravilhosas que este país já produziu. O livro merece fechar esta lista justamente por demonstrar como a busca por respostas, nesse caso, de nada serve, especialmente quando um lado está convencido do que é a verdade.

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