Alguns dizem que escrever simples é difícil. Outros, que escrever difícil é que é difícil mesmo, que essa coisa de “escrever simples” é uma desculpa para ser raso. Não sei. Sempre que esse debate circula, me lembro de quando li O velho e o mar, livro mais famoso de Ernest Hemingway e que de certa forma resumiu e redimiu sua carreira. Com ele, o autor recebeu um Pulitzer em 1953. No ano seguinte, o texto foi citado na justificativa da Academia Sueca quando o escritor foi o escolhido para o Nobel de Literatura, o que é algo raro.

Foi uma leitura muito prazerosa e bem rápida, feita em algumas horas, à noite, tendo inclusive reservado suas últimas páginas para aquela leitura que se faz na cama, meio encostado, o que significa que fui dormir com aquelas palavras, aquela história, ecoando na minha cabeça. Eu só pensava “Que coisa bonita! E que simplicidade! Tudo tão simples!”.
A simplicidade engana, é claro. Ela exige precisão, um corte das gorduras do texto, um lixamento das rebarbas, um tratamento que parece fácil, mas só parece. E o simples, quase sempre, diz muito mais do que aparenta.
É impossível não associar a escrita de O velho e o mar à vida de Hemingway, tanto como pessoa quanto como artista — coisas um tanto inseparáveis. Ele tinha uma paixão pelo mar. Na orelha do livro na edição que eu li há um foto do autor segurando o mesmo peixe que Santiago apanha, ainda que não do mesmo tamanho, e no rosto do escritor brilha um sorriso esplêndido, um sorriso que não é só com a boca, mas com os olhos, com as bochechas, com as maçãs do rosto, um riso de rosto inteiro.

Hemingway viveu muitos anos em Havana, aquela vida litorânea que muitos de nós certamente desejamos. A paixão pelo mar transparece na autenticidade com que ele narra a jornada de Santiago, uma jornada de poucos mas extenuantes dias em que, após um jejum de quase três meses sem conseguir pescar nada de interessante, fisga um peixe gigantesco e o enfrenta em uma dura batalha, repleta de pensamentos valiosos e que exige o suor e o sangue de uma vida.
Mas o escritor também tinha uma missão com O velho e o mar: escrever sua obra-prima. Ele não havia lançado nada durante dez anos desde o lançamento de Por quem os sinos dobram, em 1940, e não teve seu Do outro lado do rio, entre as árvores muito bem recebido em 1950. Por isso, a história de Santiago parece ressoar esse desejo de construir um texto definitivo, uma obra que o definisse e definisse seu trabalho.

Isso é notável na própria ação do livro, em que o maior peixe que aquele homem já pescou na vida redime todos aqueles dias de azar. Ao mesmo tempo, Hemingway parece ciente dessa falha em tentar construir uma “obra-prima” de fato, quando faz com que a embarcação de Santiago seja atacada por tubarões e ele chegue à praia apenas com a carcaça do peixe atrelada ao barco.
O desejo de se construir o melhor exige a aceitação de que aquilo pode não ser atingido. O artista que tem noção não apenas de sua capacidade, mas também da possibilidade da falha: este é o artista completo, o que, no fim das contas, pode deitar a cabeça no travesseiro com o máximo de orgulho possível do sucesso e do fracasso que brotou de sua luta.
Claro que muitos aspectos podem ser discutidos acerca desse maravilhoso livro: a jornada de uma vida em busca de um feito que ressignifique sua existência; o valor da persistência e da luta diária; a simplicidade dos objetivos em detrimento de uma vida atribulada e preenchida por banalidades; a já citada metáfora para a vida artística, do homem que busca produzir uma obra brilhante mas se frustra com um resultado diminuído, não apreciado da maneira que esperava.
Para mim, no entanto, que li este livro enquanto enfrentávamos o confinamento que a Covid-19 nos impôs, um aspecto do texto se destacou: a forma como ele elabora a solidão.
A jornada de Santiago é solitária, imposta primeiramente por seu azar e, depois, por sua insistência. É nessa insistência, nessa resiliência, porém, que o personagem se encontra. Os anos marcaram sua pele com rugas, cicatrizes e calos, e essas mesmas marcas sempre trouxeram ou levaram algo, por isso ele insiste. Porque sabe que, pelo menos uma última vez, algo virá. Ele também é romântico: não é o mar, mas la mar, mulher, misteriosa, caprichosa, que concede, mas que também nega. Acima de tudo, Santiago é um sonhador, mas um sonhador de sonhos simples, de leões na praia e jogos de beisebol.
Um homem que reconhece a solidão como sua maior companheira, mas que ao mesmo tempo sabe que não é uma maneira boa de se viver. “Pessoas da minha idade nunca deviam estar sozinhas”, ele pensa enquanto segura o gigantesco peixe na sua linha. “Mas é inevitável”, arremata, ciente de que a existência tem desses pontos em que não há o que fazer.
Pelo peixe que segura na linha, sente primeiro grande cobiça, depois respeito, por fim, pena. Não quer que ele sinta muita dor, sabe que a dor pode enlouquecê-lo. E entende que poderia ser igual a ele, gostaria de ser “aquele peixe lá embaixo na escuridão do mar”, porque a escuridão é só mais um pedaço da solidão, e ele a conhece bem. A única coisa que parece separá-los, homem e peixe, é que um está sob o mar, e o outro, na superfície. Desenrola-se entre os dois uma batalha que mais parece uma dança, dessas que o homem trava com a natureza há muito tempo e da qual quase sempre sai cansado ou morto.
Quando Santiago finalmente carrega seu peixe, seu triunfo, ele logo entende que tudo é como um sopro, e sofre, também só, quando os tubarões começam a devorá-lo. “Afinal, podia ter sido um sonho”, ele pensa e deseja, porque dos sonhos podemos acordar, sendo eles bons ou ruins. Da realidade, não.
E é duro ver aquele trabalho, aquela coisa que requisitou tanto sangue e suor, ser devorado aos poucos sem que ele possa mostrá-lo, sem que ele possa salvá-lo. Sua glória é solitária, assim como sua queda. No entanto, é a solidão que também permite que aquela glória, ainda que curta, seja inteira dele. E isso ninguém pode lhe tirar. E é por isso que, quando chega à praia, Santiago só deseja dormir. Não só pelo cansaço, mas porque nos sonhos as coisas não são tiradas dele.
A solidão parecia ser uma grande companheira de Hemingway também. Talvez pela construção de sua imagem, aquela do homem duro, parrudo e envolto por uma carapaça de charme e virilidade, mas que certamente escondia uma sensibilidade ímpar. Controverso, ostentador dessa imagem máscula que certamente ajudou a imprimir na cultura pop e na literatura norte-americana —imagem que biografias recentes têm colocado em xeque ao exporem uma identidade queer em sua vida privada.

O homem de quatro casamentos e muitas mulheres, muitas aventuras. O homem que viveu a juventude em Paris, que foi para três guerras, que explorou a África. O homem que deu fim a si mesmo, o fim amargo na bala de sua própria arma, na depressão que cresceu com a velhice e com a distância da ilha que adorava. Solitário, ainda que não sozinho.
Neste dia 2 de julho, completam-se 65 anos da morte de Hemingway. A imagem que fica para mim é a dele segurando aquele peixe, deixando escondido detrás de um sorriso tão esplêndido a dor que corroía aos poucos sua existência.
Hemingway é o velho do mar. É o homem que foi atrás daquilo que queria construir, sozinho, e o fez, ainda que tenha entendido também que isso não era nada demais. No final, estamos sozinhos, e só nos resta o esqueleto daquilo que queríamos e a esperança de uma cama para descansar nosso corpo cansado.
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