Não preciso pensar muito para listar alguns livros que são verdadeiramente assustadores. De cara, eu não deixaria de citar o arrepiante O exorcista, de William Peter Blatty, nem esquecer da sensação macabra que foi ler O cemitério, de Stephen King. Não poderia deixar de lado o início claustrofóbico da narrativa epistolar presente em Drácula, de Bram Stocker, nem ignorar a visceralidade de um Hellraiser, de Clive Barker.
Isso falando apenas dos gringos. No Brasil, autores como Oscar Nestarez, Verena Cavalcante, Márcio Benjamin e Karine Ribeiro, entre tantos outros, nos deram ótimos livros de horror nos últimos anos.
Uma lista de livros verdadeiramente assustadores poderia ser longa e bem divertida de se fazer, mas uma coisa que todos os livros que citei têm em comum é que eles pertencem ao gênero do horror/terror. No entanto, e se tentássemos listar livros que são igualmente assombrosos, mas que pertencem ao gênero?
A tarefa se torna um pouco mais complicada, porém, continua igualmente divertida. Existem livros que, ignorando qualquer convenção, exploram ambientes obscuros da natureza humana de uma maneira tão intensa que, em determinados momentos da leitura, é impossível conter um arrepio ou não encarar pensativamente a parede por alguns segundos, incrédulo com o que você acabou de ler.
Neste post, quero indicar sete livros que, apesar de não serem categorizados como livros de terror ou de horror, são obras capazes de gelar a espinha e despertar aquele sentimento de assombro que só os melhores textos insólitos são capazes.
Senhor das moscas, William Golding
O primeiro romance do inglês William Golding é uma pedrada na cara: um avião cai em uma ilha paradisíaca, e os únicos que sobrevivem são meninos pré-adolescentes, que logo se estabelecem no local e decidem se organizar para sobreviver. O que começa com uma tentativa de convivência civilizada desanda completamente quando eles se dividem em dois grupos, com um deles sendo liderado por Jack, um garoto que aos poucos vai mostrando seu lado autoritário.
Da civilização para a barbárie é apenas um passo, e não demora muito para que os garotos iniciem rituais sinistros e tomem atitudes violentas, com um desfecho repleto de brutalidade e horror poucas vezes visto de maneira tão genial em um livro.

A mensagem de Golding é incômoda: a sociedade pode sucumbir em caos e violência mais rápido do que o tempo que levou para se organizar, basta o domínio do medo e a sede de poder. É o tipo de livro que parece que não vai dar em nada, mas à medida que vai chegando ao final, as coisas vão acumulando, acumulando… é brilhante, é sutil e é aterrorizante.
Na colônia penal, Franz Kafka
De tudo que li de Kafka, acho que foi essa novela, lançada originalmente em 1919, que mais me marcou. A história acompanha um homem que é convidado a testemunhar uma execução em uma colônia penal indeterminada, em meio a uma aura de irrealidade e perturbação típica das obras de Kafka.
Durante o texto, o homem é apresentado à máquina que executa a pena, um trambolho indescritível feito de ferro, engrenagens, agulhas e lâminas, que grava no corpo no condenado não só a pena em si, mas a executa até a sua morte, em uma síntese insana da impotência do ser humano diante da crueldade de um sistema que se perpetua sobre sangue e sofrimento.

Simbologia religiosa, crítica ao colonialismo, síntese da pressão capitalista sobre o indivíduo, metáfora da alienação do homem diante do mundo virado do avesso, Na colônia penal continua sendo uma obra enigmática e horripilante. É impossível não sentir um arrepio enquanto a máquina é descrita, e é igualmente impossível não se envolver no clima insólito narrado daquela maneira banal que só um autor controverso como Franz Kafka era capaz.
Psicopata americano, Bret Easton Ellis
Um dos livros mais impactantes e perturbadores que já li, Psicopata americano conta a história de Patrick Bateman, um típico yuppie de Wall Street dos anos 1980 que, em meio a uma vida de muita grana, futilidades, roupas e comidas caras, drogas e música pop, persegue, tortura, estupra, mutila e mata mulheres, tudo isso com todo o apuro descritivo e a frieza narrativa do mesmo autor de Abaixo de zero e Suítes imperiais

A obra chocou em seu lançamento, e por pouco Ellis não conseguiu publicá-la. Com a recepção do texto, o autor foi acusado de incitar o ódio e de “glamourizar” a violência contra as mulheres. O livro não é de fácil leitura, não só pelo conteúdo gráfico como também pela estética excessivamente descritiva, seja nas cenas comuns, que descrevem a rotina do personagem, seja nos momentos em que o protagonista pratica seus crimes. Algumas cenas desse livro me assombram até hoje.
O filme de 2000, dirigido pela canadense Mary Harron e com Christian Bale no papel principal, suavizou muitas cenas e acentuou o caráter satírico da obra. Alterações necessárias, visto que muita coisa do livro é infilmável. O livro também inspirou uma música dos Misfits; é bem comum que livros inspirem boas músicas, como já comentei aqui. Uma obra arrepiante e aterradora por explorar os recônditos mais obscuros de uma mente psicopata.
O coração das trevas, Joseph Conrad
O livro mais famoso do polonês Joseph Conrad conta a história de um homem que viu o horror: Charles Marlow, contratado de uma companhia de comércio belga, relata sua viagem para o Congo belga e a importante tarefa de localizar e trazer de volta para a civilização o Sr. Kurtz, um comerciante de marfim que supostamente enlouqueceu e é cultuado como um deus pelos nativos. A obra retrata um tenso período da história recente: a exploração colonial do Congo na virada do século XIX para o XX pelo então rei da Bélgica, Leopoldo II. O relato remete a experiências do próprio Conrad como marinheiro mercante.

De maneira sutil, Conrad nos joga em um mundo de escravidão e crueldade ao mostrar a subida de Marlow pelo Rio Congo e as atrocidades que ele testemunha pelo caminho. Há um intenso debate acerca do quanto o livro é, de fato, crítico às práticas do período, mas uma coisa é certa: a forma como representa a exploração do marfim no Congo é de causar arrepios.
Todo mundo já deve saber disso, mas o livro deu origem ao fenomenal Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola, que adaptou a trama para o contexto da Guerra do Vietnã. Mas o texto de Conrad continua relevante por revelar os horrores do tratamento desumano reservado aos congoleses, da exploração predatória dos recursos naturais e da indiferença pela vida humana. Um livro curto e intenso, narrado com a maestria e o realismo de quem vivenciou o período.
Meridiano de sangue, Cormac McCarthy
O faroeste revisionista deste titã estadunidense nos apresenta o Garoto, personagem que cresce em um mundo onde impera a violência e a lei do mais forte. Em meio às suas andanças, ele se une ao bando do sanguinário — e real — pistoleiro John Joel Glanton, que cruza os desertos do oeste dos Estados Unidos e do norte do México dizimando tribos indígenas em troca de dinheiro.
Um intrigante personagem completa o grupo: juiz Holden, um homem albino e gigantesco, inteligentíssimo e cruel, que emana uma aura de mistério e terror. Em meio aos massacres, o Garoto vai descobrindo o verdadeiro significado da palavra “inferno”

Meridiano de sangue (que tem como maravilhoso título alternativo “O rubor crepuscular no Oeste”) é uma narrativa intensa e violenta. McCarthy mescla descrições poéticas das paisagens desérticas com batalhas e massacres repletos de sangue, vísceras e escalpos. Narrada por uma das vozes mais marcantes da literatura contemporânea, é uma obra que permanece em sua cabeça, não só pela força da prosa de McCarthy, mas também pela intensidade gráfica de suas descrições e pelo poder dos temas abordados: a maldade, a injustiça e o poder.
Metástase, de Paula Febbe
Novela visceral e experimentalista, Metástase se destaca pelo tom provocativo e intenso. Na história, uma garota é sequestrada, mantida em cativeiro e abusada de diversas maneiras, em uma escalada de tensão que desmantela seu psicológico e tem consequências inimagináveis em seu comportamento.
No entanto, diferentemente de uma abordagem sensacionalista, Paula Febbe opta pelo mergulho no subconsciente da protagonista, expondo os traumas e a fragmentação da mente diante de tanta violência. A premissa, repetida em diversas outras obras, assusta neste pequeno livro pela capacidade da prosa da autora de mostrar o que acontece sem mostrar, sugerindo com pouco um estrago gigantesco.

A economia do texto, no entanto, não poupa o leitor, que fica um bom tempo pensando naquela história, mesmo com tão pouco. O texto é transgressor e nos deixa com uma sensação desconcertante de impotência durante toda a leitura. Uma obra impactante de verdade.
O conto da Aia, Margaret Atwood
Distopias são assustadoras, e aqui trago uma das mais realistas e plausíveis do gênero. Em O conto da Aia nós somos apresentados a uma versão totalitarista e fundamentalista dos Estados Unidos — ainda bem que é ficção, não? — chamada “República de Gilead”. Nesse governo, a liberdade dos cidadãos é reestruturada, e quem acaba mais sofrendo nesse contexto são as mulheres.
Diante de uma suposta crise de infertilidade que assola o país, as mulheres que permanecem férteis são sequestradas e mantidas sob custódia do Estado, tornando-se “Aias”, receptáculos condicionados com o único propósito de gerarem filhos para os poderosos do partido.

A protagonista, Offred, lembra-se do mundo como era antes do novo governo e, em meio a uma vida horrível marcada por estupros periódicos e confinamento, ela revira em sua mente os acontecimentos do seu passado, enquanto tenta sobreviver — e quem sabe escapar — desse mundo desumano.
O que assusta no livro de Margaret Atwood é sua proximidade com a realidade. Tudo ali é possível e, como diz a própria autora, já aconteceu em algum momento da história. E mais do que nunca, o mundo parece à beira de se entregar à gana fascista de violência que se fundamenta na dominação dos corpos, quase sempre dos corpos femininos, o que transforma O conto da Aia em uma leitura sempre urgente.
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