Realidade e ficção sempre estiveram entrelaçadas. É forte, na tradição ocidental, a ideia de reproduzir o mundo real nas artes. Tal ideia aparece, por exemplo, na Poética de Aristóteles, com o conceito de “mímesis”, a “imitação” ou “emulação” da natureza. Mesmo que a história seja uma tragédia com a presença de deuses e acontecimentos grotescos, o real precisa ser “simulado”, de alguma forma.
Verossimilhança é outra palavra muito associada à ficção. A escola Realista recorre a ela em clássicos como Madame Bovary: há uma espécie de reprodução do real, ou melhor, de efeito de real, como diria o semiólogo e crítico literário francês Roland Barthes, a partir dos detalhes, de uma construção que prioriza retratar o mundo como ele é. E mesmo na literatura fantástica essa conexão com a realidade é essencial, seja para fixar as bases de um universo verossímil, seja para, a partir da verossimilhança, distorcer, confundir e impactar o leitor com alguma subversão dessa realidade.
Há casos, no entanto, em que a realidade se entrelaça com a ficção de um jeito diferente: inspirando-a diretamente. É o caso dos livros baseados em fatos. Neles, não é apenas a verossimilhança que importa, mas a presença efetiva do acontecimento ou de algum personagem do mundo real dentro da história fictícia. Há autores especialistas em histórias do tipo, como Bernard Cornwell, que escreveu diversas sagas sobre a história da Inglaterra, mesclando fatos e ficção. Mas nem sempre as histórias precisam seguir o fato ao pé da letra: inclusive, é nessa interação entre o que é real e o que é fictício, que livros baseados em fatos se tornam interessantes.
Podemos ler uma história totalmente nova, uma história secreta, uma história paralela, ou até mesmo extrapolações que fazem do acontecimento real algo menos ou mais interessante. Podemos, ainda, conhecer histórias que tentam filtrar alguma parte do fato, uma vez que, às vezes, o impacto do real é forte demais para que possamos compreendê-lo.
Escrever ficção baseada em fatos é uma aventura diferente: demanda muita pesquisa, respeito ao acontecimento real e à memória das pessoas envolvidas, principalmente se elas passaram por algo ruim. E também envolve muita imaginação e uma fascinação pela História, aquela com H maiúsculo que muita gente tenta distorcer. Nesta lista, indico para vocês 7 livros baseados em fatos. Vamos lá?
O retorno de Casanova, Arthur Schnitzler
Nesta novela, Arthur Schnitzler inspira-se na história de Giacomo Casanova, um escritor e aventureiro que viveu entre 1725 e 1798. Casanova nasceu em Veneza, iniciou-se na carreira militar e na eclesiástica, mas abandonou ambas em prol de uma vida de aventuras. Famoso sedutor e libertino, as lendas sobre sua pessoa eram tantas que inspirou diversos outros autores ao longo da história.
Casanova viajou por quase toda a Europa, seja para conhecê-la, seja para fugir da Inquisição. Ficou 18 anos sem retornar à Veneza, onde era acusado de propaganda antirreligiosa e de possuir livros proibidos. Entre suas obras, estão os livros Isocameron e as memórias História da minha vida, com nada menos que 28 volumes.

É em algum momento dos 18 anos longe de Veneza que Schnitzler situa O retorno de Casanova. No livro, ele já é um homem de meia idade, amargo e saudoso de sua terra natal. Desejando retornar para Veneza, mas na expectativa de uma última aventura, ele tenta seduzir uma moça cheia de princípios que reside com uma família amiga. Rejeitado, Casanova remói toda a amargura e o ódio pelo envelhecimento, enquanto tenta uma última jogada que expõe não só sua revolta e desprezo pelas convenções sociais, como também o seu pior lado.
O retorno de Casanova tem uma carga sexual sutil e várias das características que chamaram a atenção de Sigmund Freud para a obra do autor, como a presença de questões do inconsciente e do desejo. Schnitzler usa Casanova para demonstrar como o homem é capaz dos artifícios mais sujos para conseguir o que quer, mesmo que isso vá contra todos os princípios que finge defender.
Dália Negra, James Ellroy
Em 15 de janeiro de 1947, um crime chocou Los Angeles: o corpo de uma jovem atriz chamada Elizabeth Short foi encontrado em um terreno baldio. Os detalhes são brutais: o tronco estava separado das pernas em um corte na altura da cintura; havia cortes e perfurações em seus seios e coxas; o seio esquerdo foi parcialmente removido; havia escoriações em sua cabeça e marcas de cordas nos pulsos e nos tornozelos; e sua boca foi aberta de orelha à orelha com uma faca afiada. A descoberta do cadáver mobilizou toda a polícia de Los Angeles e fez muito barulho na mídia. Ainda assim, até hoje o crime permanece sem solução. Não se sabe quem, nem por que, Elizabeth Short foi morta. O caso ficou conhecido como “Dália Negra”.
Quarenta anos depois, James Ellroy publicou Dália Negra, livro em que mescla o crime real com a vida de dois investigadores fictícios, Leland Bleichert e Dwight Blanchard. Os dois são ex-boxeadores e parceiros no departamento de capturas da corrupta polícia de Los Angeles. Quando encontram o corpo esquartejado de Elizabeth Short, suas vidas mudam: Leland revive na vítima o trauma da perda de sua irmã, assassinada anos antes, e fica obcecado em descobrir quem a matou; e Dwight embarca na obsessão do amigo enquanto se envolve com uma mulher que conheceu Short, projetando nela um desejo profundo pela moça assassinada.

Em meio a esse turbilhão de sentimentos, os dois vão descobrir coisas macabras envolvendo a polícia da cidade, empresários da construção civil e do cinema, mafiosos, traficantes e prostitutas, tudo que pulsa por baixo da camada de civilidade, perfeição e fama de Hollywood. Um fato macabro sobre o livro e seu criador é que, em 1958, a mãe de James Ellroy também foi assassinada, e o crime não foi solucionado. Quando o escritor leu sobre o assassinato de Short, a conexão com a morte da mãe foi inevitável. O livro foi a forma que encontrou para lidar com ambos os crimes, com a impunidade e com a face norte-americana que ninguém quer ver, de assassinatos, prostituição e corrupção.
A escrita de Ellroy é direta e precisa, seu estilo é descritivo e envolvente, mas sem deixar a história massante. Dália Negra é repleto de reviravoltas que pegam o leitor completamente desprevenido. Um noir para quem gosta de personagens complexos.
A garota da casa ao lado, Jack Ketchum
Como no exemplo anterior, A garota da casa ao lado também é baseado em um crime brutal. Jack Ketchum leu sobre o caso de Sylvia Likens, uma garota de 16 anos que foi torturada até a morte por Gertrude Baniszewski, seus filhos e até mesmo outras crianças da vizinhança. A menina tinha sido deixada aos cuidados de Gertrude junto com sua irmã pelos próprios pais, que eram artistas circenses e viviam viajando.
O crime aconteceu em Indianápolis, Indiana, no ano de 1965. Gertrude, uma mulher depressiva e frustrada devido aos casamentos fracassados, manteve Sylvia em um porão, fazia a menina beber a própria urina e comer as próprias fezes, além de permitir que seus filhos e meninos vizinhos a espancassem e a violentassem sexualmente. Quando a garota morreu, devido a uma hemorragia cerebral, Gertrude ainda tentou lavar as próprias mãos, forjando uma carta na qual a menina dizia que fora sequestrada e abusada sexualmente por um grupo de jovens. A irmã caçula de Sylvia, Jenny Likens, que havia testemunhado a tortura da irmã e também sofrera agressões, contou tudo para a polícia, levando a agressora e seus filhos para a cadeia.

Ketchum admitiu, anos depois, que a história real o deixava enfurecido. O livro, de certa forma, foi a maneira que ele encontrou de lidar com tamanha violência. No romance, a história se passa nos anos 1950 e é narrada por David, um menino que participa das brincadeiras violentas dos vizinhos até conhecer Meg, uma garota órfã que, juntamente com a irmã, ficam sob a custódia da tia, Ruth Chandler. Não demora para que Ruth e seus filhos comecem a maltratar as meninas. A violência descamba e Meg é feita prisioneira no porão, sofrendo todos os tipos de tortura.
A presença do narrador nas cenas é incômoda e revoltante, em partes por sua isenção, em partes por sua incapacidade de agir. É dessa forma que a história escalona em brutalidade e crueza, fazendo da leitura de A garota da casa ao lado uma experiência intensa e nada reconfortante.
Por meio dessa história, o autor expõe o lado cruel da família norte-americana, disfuncional e problemática, cheia de assuntos mal resolvidos e falsos moralismos. Também cutuca o lado frio e parcial das pessoas que não interferem contra a violência que outros sofrem, além de mostrar como os seres humanos são capazes de agir de maneira irracional quando autorizados, vivendo em uma realidade alienada e desumana, seguindo ordens sem questionamento. A garota da casa ao lado é um soco no estômago daqueles, um livro que te deixa incomodado por muitos e muitos dias após a leitura.
História do cerco de Lisboa, José Saramago
José Saramago é, até o momento, o único escritor em língua portuguesa a ter recebido o Prêmio Nobel de Literatura. Em História do cerco de Lisboa, o autor se inspira em um acontecimento real: o cerco de Lisboa de 1147, capítulo importante da Reconquista Cristã dos territórios da Península Ibérica. O cerco de Lisboa foi uma ofensiva contra o reino islâmico de Badajoz, que dominava a cidade e boa parte da região que hoje é Portugal desde o início do século XI. As forças lusitanas, lideradas por D. Afonso Henriques, cercaram a cidade em 1º de julho de 1147 com a ajuda dos Cruzados, que seguiam para o Oriente Médio.
O cerco em volta dos muros da cidade foi a parte mais árdua da batalha, exigindo paciência tanto dos guerreiros em ofensiva quanto daqueles que defendiam a cidade. Sem o fluxo de mercadorias e alimento, no entanto, as defesas foram enfraquecendo, até o momento em que o exército português fez ceder parte do muro, invadindo a cidade e a reconquistando em 21 de outubro de 1147. Lisboa se tornaria a capital do Reino de Portugal apenas em 1255, anos após o cerco e depois de passar por uma epidemia de peste negra que matou muita gente. Uma curiosidade interessante é que esse cerco representou a única vitória da Segunda Cruzada, que havia sido proclamada pelo Papa Eugênio III.

No livro de Saramago, as coisas ganham contornos mais metalinguísticos. A narrativa é dividida em dois fluxos temporais: o principal, nos anos 1980, em que conhecemos o protagonista, Raimundo Silva, um revisor que trabalha para uma editora e está apaixonado por Maria Sara, sua chefe; e o secundário, que se passa em 1147 e é uma história de amor entre o soldado Mogueime e a jovem Ouroana. Esta segunda história se passa dentro de um livro que Raimundo está revisando, justamente sobre o cerco de Lisboa, e no qual ele age de maneira efetiva ao alterar um fato marcante do acontecimento: excluindo a participação dos Cruzados. O que essa exclusão representaria para a narrativa do cerco?
História do cerco de Lisboa é o que se espera de um livro de Saramago: complexo, poético e repleto de um vocabulário desconcertante, ao mesmo tempo em que exige atenção redobrada devido a seu estilo rebuscado e econômico na pontuação. Os paralelismos são muito interessantes e as transições entre os dois períodos temporais são dinâmicos. Ainda assim, é um livro para leitores atentos e que estejam acostumados com leituras mais exigentes.
Do Inferno, Alan Moore e Eddie Campbell
Graphic novel com impacto literário, Do Inferno aborda um dos acontecimentos mais macabros da Inglaterra vitoriana: o caso mais famoso de assassinato em série da história, os assassinatos cometidos por Jack, o Estripador, com cinco vítimas confirmadas entre os dias 31 de agosto e 9 de novembro de 1888, no distrito de Whitechapel, em Londres. As vítimas, todas mulheres, foram brutalmente assassinadas durante a madrugada, tendo desde as gargantas cortadas até órgãos removidos.
O caso envolveu os jornais e tabloides da época, que ajudaram a aumentar o clima de medo que se espalhou pelas ruas do East End, e até hoje permanece sem explicação. O tal “Jack” nunca foi capturado. Centenas de obras foram criadas a partir do caso, sendo Do Inferno uma das mais interessantes e polêmicas.

Na HQ, genialmente ilustrada por Eddie Campbell, a história acompanha as cinco vítimas e o próprio assassino que, na obra, é identificado como um dos suspeitos reais dos crimes na época. No entanto, além de reproduzir aquelas semanas de horror, com o assassino em ação, Alan Moore mescla teorias conspiratórias, espiritualidade, magia negra, maçonaria, história secreta e muitas referências ao período vitoriano para criticar a moral da época, explicar a transição do século XIX para o século XX e desmascarar o papel opressor e destrutivo do machismo, do capitalismo e da monarquia na sociedade ocidental. O título, “Do Inferno”, foi retirado de uma das inúmeras cartas atribuídas a Jack que foram enviadas para a polícia durante a investigação.
O traço rabiscado de Campbell mescla-se com a reprodução fiel de acontecimentos e locais da Inglaterra, e traz à narrativa criada por Moore uma aura de irrealidade, confusão e opressão. A diagramação simples, com quadros retos e paralelos, transmite uma sensação de foco e elegância, como um filme clássico desenrolando-se em uma tela de cinema. Ao mesmo tempo, é preenchendo esse formato padrão com uma arte rabiscada, confusa e distorcida que o quadrinho ganha ares subversivos, flertando com o horror cósmico e o absurdismo. Do Inferno é um grande exemplo da capacidade de Alan Moore de criar obras fascinantes.
Nove Noites, Bernardo Carvalho
Além de se inspirar em um fato, Nove Noites também trabalha com questões como memória e autoficção. A obra conta duas histórias: a primeira fala sobre os últimos dias de vida de um antropólogo norte-americano, Buell Quain, que estudava diversas tribos indígenas no Brasil e cometeu suicídio na floresta nos anos 1930, sem qualquer explicação; e a segunda acompanha um escritor investigando, anos depois, a vida e os conhecidos de Quain, na tentativa de esclarecer o que motivou seu suicídio.
Acontece que Buell Quain realmente existiu. Ele nasceu em Bismarck, cidade da Dakota do Norte, em 1912. Ele se formou em Antropologia na Universidade de Columbia e estudou por vários anos algumas etnias das Ilhas Fiji. Veio para o Brasil para estudar a tribo Krahô, na região Norte, mas por alguma razão misteriosa, decidiu tirar a própria vida aos 27 anos. O suicídio, violentíssimo, foi testemunhado por dois indígenas que o acompanhavam na volta de uma expedição. Ele deixou algumas cartas, mas nenhuma que explicasse os motivos de sua decisão. Muitos anos depois, após ler uma breve matéria sobre o caso, Bernardo Carvalho ficou intrigado com aquela história e, como outros exemplos desta lista, a ficção foi a forma que encontrou para lidar com aquilo.

Mas o livro não pode ser definido como pura ficção porque, entremeada à narrativa, que às vezes ganha um tom jornalístico, às vezes um tom de literatura policial, o autor insere momentos de sua infância, quando ele e o pai visitaram tribos indígenas no Norte do Brasil. Além disso, o próprio autor se torna um personagem que parte para os Estados Unidos em busca de entender o suicídio do antropólogo e para falar com as pessoas que o conheceram.
É nesse ponto que ficção e realidade se confundem, e mais do que tentar definir o que é fato e o que não é, o importante é seguir junto do narrador nessa tentativa de compreender uma atitude que pode parecer tão desesperada. É nesse jogo que confunde e, ao mesmo tempo, fascina o leitor que Nove Noites se transforma em uma obra arrebatadora e que ecoa por muito tempo após a leitura.
Kiumba, Everaldo Rodrigues
Em Kiumba, livro que publiquei originalmente em 2022, me inspiro em dois acontecimentos marcantes da história do Brasil. O primeiro é a Revolta da Chibata, que aconteceu em novembro de 1910 e foi marcado pela sublevação de milhares de marinheiros em quatro navios de guerra da Marinha. Esse marinheiros, em sua maioria homens negros e pobres, exigiam o fim dos castigos corporais e a melhoria nas condições de trabalho. Liderados pelo marinheiro gaúcho João Cândido, eles conseguiram que a lei que proibia castigos corporais passasse a valer para eles, mesmo que, cerca de um mês depois, quase todos tenham sido presos, torturados e penalizados pela revolta, resultando em expulsões para vários deles, Cândido incluído.
O segundo acontecimento é o Golpe do Estado Novo, protagonizado por Getúlio Vargas e a alta cúpula militar do governo, que em 10 de novembro de 1937 fechou o Congresso e estabeleceu-se de vez como um ditador da república, proibindo eleições e governando por mais oito anos. A justificativa para o golpe foi a descoberta do documento do “Plano Cohen”, que supostamente detalhava uma revolta comunista em preparação no país. Descobriu-se, depois, que o documento era falso, produzido por militares brasileiros para legitimar o golpe.

Com base nesses fatos, eu costurei a história de Bento, o protagonista, personagem negro, fotógrafo de um jornal, que vive na capital brasileira em 1937, tem sonhos premonitórios e se vê envolvido nas mortes de militares de alta patente, até descobrir que seus sonhos têm ligação com os marinheiros torturados e mortos após a Revolta da Chibata. Caberá a Bento entender o peso desse passado violento, enquanto tenta escapar das acusações de subversão do governo Vargas.
Em Kiumba, o romance histórico se mistura ao gênero do horror sobrenatural. Personagens fictícios e reais convivem em meio à ambientação carioca dos anos 1930, trazendo uma narrativa intensa e violenta, ao mesmo tempo em que resgata acontecimentos que quase foram apagados da nossa história.
Deixe um comentário